CAMPUS ON-MAST - ANTEPROJETO DE URBANIZAÇÃO E PAISAGISMO DO OBSERVATÓRIO NACIONAL E MUSEU DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS AFINS

 2º LUGAR NO CONCURSO PÚBLICO NACIONAL DE ANTEPROJETO PARA URBANIZAÇÃO E PAISAGISMO DO CAMPUS ON/MAST

Localização: Bairro Imperial de São Cristóvão / RJ

Área: 46.219 M2

Ano: 2007

Paisagismo do Campus ON/MAST: Um olhar renovado como forma de Reconectar o homem e o universo, seu planeta e meio ambiente | Anteprojeto de Urbanização e Paisagismo

O Campus ON/MAST foi tombado pelo IPHAN em 14/08/1986 como Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Observatório Nacional, com destaque para os Edifícios Históricos e a relevância arquitetônico/paisagística do conjunto. As bases do Plano Proposto priorizaram a Área de Ambiência do Campus compreendendo sua vocação histórica, cultural, cientifica e tecnológica, além da preservação do patrimônio tombado, evitando conflito entre as atividades de pesquisa e de visitação pública. Para tal, o Plano incluiu também especial atenção ao Sistema Viário, quanto à Caracterização dos Acessos, Circulação Interna e Estacionamentos, tanto no que diz respeito à sua integração a cidade, bem como a utilização do desenho universal para a sua configuração, visando ao alcance de grau máximo de acessibilidade e as melhores condições aos usuários.

Observando o complexo e fascinante mundo da astronomia e de suas ciências afins, entendemos que o CONCEITO para o design paisagistico do campus ON-MAST deveria oferecer estímulos que o desmistificasse. Estes foram propostos para ampliar as possibilidades de comunicação entre ciência e sociedade. Apesar da astronomia parecer afastada de nosso cotidiano, ela oferece um excelente exemplo de interligação entre ciência básica e conhecimento tecnológico. Desta interligação surgem novos paradigmas que expandem a visão que temos do Universo e do nosso Planeta, influenciando outras áreas do conhecimento, que determinam parte de nossas vidas. Criou-se para isto um Circuito Temático, unificando os vários espaços, praças e jardins, numa forma lúdica que deverá expressar e manter aceso o mundo poético que emana da relação entre o homem e os astros, enfatizando o mundo científico e tecnológico que também nele se abriga. Praças homenageiam o homem, as galáxias, o sol e seu sistema planetário, a terra, a luz, as cores, o som, o dia e a noite, o céu e a terra. Esculturas, objetos interativos, murais, hieroglifos, provocam e estimulam a curiosidade. Enquanto pequenos pavilhões informativos permitem, através da instalação de equipamentos modernos de comunicação, a exposição e a atualização das informações que origina deste diálogo ancestral entre o homem e o universo.

                                                         

DA CHEGADA no CAMPUS: CENTRO DE VISITANTES e PRAÇA DO SOL

A partir da escadaria junto à torre do elevador, adotada como a entrada principal, começamos nosso circuito temático que lança sua rede em torno das edificações sugerindo um percurso linear, mas ao mesmo tempo complexo, com uma diversidade de pontos de estadia pelo caminho, articulações e desvios do percurso principal que oferecem momentos mais íntimos e proporcionam um sentido de descoberta e decisão individual. Cada visita provoca o descobrimento e a posse temporária de uma nova situação. O sentido de urbanidade que acompanha o percurso proposto pelo Plano Paisagístico apresenta-se aqui pela função ecológica que este “jardim” desempenhará no bairro e na cidade na sua expressão mais holística.

No nível 18 o visitante atinge o patamar de entrada no Centro de Visitantes onde, além das informações, poderá desfrutar das facilidades de um café e loja de souvenirs. O café abre-se para uma grande praça projetada como uma homenagem ao Sol. A conformação circular de uma grande pérgula, simbolizando o desenho das órbitas dos planetas do Sistema Solar, providencia um teto, uma 3ª. dimensão a uma ampla sala de estar que se estende no exterior, com mesas e cadeiras removíveis dispostas sob um jogo de luz e sombra que desempenha papel fundamental. Essa grande superfície no nível 21,50, conseguida com o acerto do terreno, abriu a perspectiva valorizando o conjunto patrimonial das casinhas da ladeira do Gusmão que surge ao fundo da Praça do Sol atingida pela escadaria em patamares. Do mezanino do café, o visitante poderá atingir atingir o nível do Museu na cota 28, através de um Pavilhão Informativo em configuração de túnel em rampa,onde através de equipamentos interativos e computadores vai aprendendo e se divertindo iniciando seu passeio educacional pelo Campus ON/MAST.

                    

                      

DO TERRAÇO À PRAÇA DO MUSEU

O terraço formal que se estende na frente do Museu, teve seu desenho retificado criando Eixos ‘Virtuais’ para que as construções pudessem dialogar entre si e o conjunto com seu entorno urbano. A vegetação aqui projetada, um renque de palmeiras imperiais, enquadra a edificação, retirando-a de um mundo calmo interiorizado, e mostrando-a imponentemente à cidade. Não se trata aqui de integrar um grupo de edificações num parque nem de construir um jardim para servir a um edifício específico. Buscou-se encontrar de fato uma relação total, de tal forma íntima entre ambos os elementos que compõe o todo, para que a composição abranja a área inteira, que a própria vida dos edifícios se prolongue naturalmente para as “salas de estar” ao ar livre e destas para os interiores. Por esse motivo, sugeriu-se a retirada da lanchonete existente na parte posterior do Museu para que não houvesse nenhuma barreira que impedisse a incorporação visual a partir do interior do edifício ao grande espaço de praça ali atrás delineado. Esta praça atrás do nobre edifício, denominada Praça do Museu, é um ponto chave, um importante elemento de ligação entre a parte baixa (Centro de Visitantes) e a parte alta e bucólica (Parque das Lunetas) do Complexo ON/MAST. Para dar escala ao edifício do Museu, a ampliação visual do espaço desta praça era necessário o que foi alcançado através da utilização de um piso em paralelepípedos, o mesmo da rua interna ali existente. Ao atingir o espaço visual da praça, a rua é interrompida seguindo gentilmente marcada no piso com plaquetas de metal sinalizadoras. Ela retorna ao aspecto de rua ao atingir a ladeira do Gusmão. Direcionando o percurso dos visitantes, a Praça do Museu abrigaria ainda uma instalação denominada “Caminho da Evolução” que propõe esculturas, em diferentes materiais, sobre a evolução do homem desde o macaco , o Homo antecessor ou pré-homem, passando pela idade da pedra ( Homo habilis ), idade do bronze, do ferro (cromado) seguindo até o Homo sapiens sapiens representado por um astronauta (em tyvek) que começa a subir a nova escadaria de acesso ao Parque.

                 

Essa escadaria foi fruto de cuidadoso estudo. Aqui, na Praça do Museu ela ganha presença e destaque, além de efetivamente marcar a entrada original do complexo das edificações tombadas do parque. Como importante elemento de ligação, a escada é o coração da praça. O seu elemento principal, que é também a marca de seu desenho, é um conjunto de lâminas em degraus recortados, que conferem uma entidade coesa dentro das várias diferenças de níveis. Cada lâmina é ao mesmo tempo uma parte do itinerário, um ponto de paragem e um lugar ela própria. Cada lâmina representa um momento individual, sugerindo distinção e continuidade ao mesmo tempo, e faz lembrar que cada contínuo é composto por elementos individuais. No final do percurso, a escadaria atinge um platô que define uma ante-sala ao conjunto da Praça dos Pavilhões e ao Parque das Lunetas. Esse pequeno espaço, denominado Praça da Hora em referência à antiga Casa da Hora, abrigará no centro um equipamento interativo, como um jogo que convida o visitante a brincar e descobrir as horas de todo o mundo.

DA PRAÇA DOS PAVILHÕES E PARQUE DAS LUNETAS AO PROMENADE

Na Praça dos Pavilhões buscou-se valorizar o conjunto dos edifícios num plano mais retilíneo de um piso calmo onde esses sobressaem surgindo dentro de superfícies de água. Pequenas canaletas buscam o diálogo entre cada Pavilhão e suas correspondentes miras atravessando uma tranqüila superfície de relva. Para o conjunto das Cúpulas buscou-se retomar uma paisagem bucólica onde a sinuosidade dos caminhos e água fornece um desenho sugestivo ao caminhante, valorizando ângulos de visão e pontos de parada para a contemplação de todo o patrimônio arquitetônico. É importante ressaltar que para a criação desse clima ameno foi imprescindível a retirada da rua de automóveis do interior deste espaço, conferindo-lhe após este gesto projetual, um caráter de parque. A paisagem criada proporciona um mundo calmo interiorizado, retirado da rua, mas com aberturas cuidadas para vistas direcionadas sobre a cidade ou a partir do nível mais alto, com a retirada dos muros circundantes, através de um “promenade” com mirante que permite um percurso sobre um amplo panorama.

A apropriação do antigo muro de pedra ali existente, como um elemento importante de percurso e transição para a encosta íngreme, foi uma opção do partido adotado no que se refere a apropriação deste vínculo da história do lugar. Aqui vale a pena realçar a importância do caráter do lugar, o gennius locci, na proposta apresentada. Vemos esse espaço como um espaço de conhecimento, pesquisa, aprendizagem e, principalmente, de reflexão. E o desenho busca incorporar a estrutura dessa memória. Esta reflexão sintetiza de forma clara dois temas fundamentais: um refere-se ao contexto morfológico do espaço, o outro se refere ao contexto temporal e cultural que o enquadra. O primeiro é a âncora, é a permanência que em cada tempo se transmuta pelo tempo cronológico e cultural, e também biológico. É a matriz que tudo condiciona e que a ordem cultural, que nele se inscreve, deverá sublimar. O segundo é aquilo que é fugaz, é o devir que acrescenta ou retira matéria: é o escultor que inscreve no espaço matricial o espírito do tempo.

                

DO PROMENADE À VIA LÁCTEA e AO ANFITEATRO

Para ocupação da encosta, prolongamento do terreno, propõe-se, em primeiro lugar, a escavação do local para que parte do antigo muro possa ressurgir com suas arcadas. O próprio “zigue-zague” do muro definiu o desenho para a ocupação desta encosta. O leitmotif da linha quebrada surge no percurso dos decks em madeira e convida a movimentar-se para a direita e para a esquerda, e juntamente com a própria variação de nível do terreno, anula um sentido unidirecional. Pequenas “ilhas” de parada surgem entre as pontes suspensas em meio a encosta recoberta com uma massa de vegetação cuidadosamente escolhida, com porte adequado para a não obliteração das vistas, com espécies de Mata Atlântica que não podem faltar na recuperação de áreas degradadas.

Da própria conformação do antigo muro de pedras, a partir da extensão do deck do promenade que forma o mirante projetado, sugere neste ponto um enclave como que escavado na rocha. Esse espaço de estadia, denominado Buraco Negro, acolhe o visitante a parar, aprender e a refletir um pouco mais sobre a astronomia através de projeções no teto desta pequena “caverna”. Mais adiante, atingindo a cota 25, o espaço se abre para a Praça da Luz que, através de equipamentos interativos instalados num grande muro de pedras, apresenta a temática da luz e da cor (Mural do Diagrama de Hertzsprung Russel).

Finalmente chegamos a grande Via Láctea: que foi desenhada como uma via mesmo, um caminho projetado num piso negro com a utilização da fibra ótica como recurso especial de iluminação para a produção de um efeito de céu noturno estrelado. A nossa Galáxia, ali representada, interage com o caminhar do visitante que, conforme vai pisando no chão, algumas das constelações mais conhecidas vão acendendo no piso. Uma espécie de brincadeira que procura, paulatinamente, configurar um “mapa” do céu. Ao fim do passeio “sideral”, o caminho retoma a configuração de ponte flutuante em madeira até atingir o anfiteatro no final do percurso, local de socialização do jardim. Nesse espaço, recoberto pelo “teto” de um bambuzal, o circuito se fecha, e a partir do amplo deck de chegada que abraça o anfiteatro, o caminhante pode optar entre retornar ao ponto de partida – o Centro de Visitantes - ou subir através de um arranjo de platôs em escadas até o terraço do Museu, ou retomar o caminho de volta ao bosque da encosta, através de um atalho junto a antiga muralha, atingindo o Buraco Negro. Ainda neste espaço do deck serão instalados equipamentos interativos relacionados às ondas sonoras.

 

EQUIPE:

 Arquiteta Coordenadora Responsável :

Anelice Lober - arquiteta e paisagista

 Co-autores do projeto:

Ruth Braun - arquiteta e paisagista

Daniele Ruas – arquiteta e urbanista

Ricardo Costa– arquiteto

Rafael Veiga – arquiteto

Marcus Venanzoni – arquiteto

Pedro Newlands –arquiteto

Gustavo Aguillar - designer