FAZENDA RIBEIRÃO PRETO

  CLIENTE: TREVISAN

Localização: Ribeirão Preto / SP

Área total: 40 alqueires

Ano: 2003 / 2005

Estudo Preliminar para implantação da Fazenda com Inventário Botânico; Projeto de Tratamento Paisagístico do Entorno da Edificação Residencial. Projeto Executivo e Execução da Residência.

REVITALIZAR A PAISAGEM: PENSAR

 “Chega um momento ( não sempre ) nas investigações, em que, como em um quebra-cabeças, as peças começam a colocar-se em seus lugares. Mas, diferente do quebra-cabeças, onde todas as peças estão ao alcance das mãos e a figura que se há de compor é uma só (e por isso, o controle da exatidão das operações é imediato), na investigação, as peças só estão disponíveis parcialmente, e as figuras que se hão de compor teoricamente são mais do que uma. Existe sempre o risco de se utilizar, conscientemente ou não, as peças de um quebra-cabeças como blocos de um jogo de construir. Por isto, o fato de estarem todas em seu lugar é um indício ambíguo: ou bem estamos certos, ou bem erramos totalmente. Neste último caso, se usa como comprovação externa a seleção ou captação (mais ou menos deliberada) de testemunhos, obrigados a confirmar os pressupostos ( mais ou menos explícitos ) da investigação. O cachorro acredita morder um osso quando, na realidade, está mordendo sua própria cauda.”  Carlo Guinsburg, Giocho di Patienza, Seminário, Turim, 1975, pp:84

O trabalho de diagnóstico não é muito mais que um mapeamento dos problemas e conflitos identificados nas fases de levantamento e caracterização de uma área estudada. Sabemos que quanto melhor é o desempenho nas etapas de levantamento e no texto e mapas de caracterização, tanto melhor será o diagnóstico de problemas e conflitos. Por sua vez, um bom diagnóstico é meio caminho andado para um correto e coerente plano de intervenções.

Os problemas identificados durante o levantamento e a caracterização da área objetivo do projeto de arquitetura paisagística da Fazenda Santa Cruz, Ribeirão Bonito, São Paulo, impõem intervenções em diversos níveis. Algumas soluções podem ser apresentadas como partes de um projeto paisagístico. Outras irão depender de um conjunto de sugestões, a serem conduzidas e implantadas a longo prazo, que visam estabelecer uma maior biodiversidade a mata de cerrado existente e a intensificar o florestamento ( com etapas de sucessão programada) das margens dos córregos da mata ciliar situada nos arredores, atualmente bastante erodida ( ver diagnóstico). Devemos salientar também a necessidade de abrir aceiros como demarcação do território de toda a fazenda para impedir a propagação de fogo, tão peculiar nessas áreas de cerrado, pois tanto a vegetação quanto o solo sofrem os efeitos do fogo.

Os problemas e conflitos levantados são:

  • grande área devastada exposta à radiação solar;
  • a mata existente carece de biodiversidade;
  • erosão às margens dos córregos na mata ciliar;
  • quantidade insuficiente de superfície de água ( para o clima quente e seco);
  • nascente do lago existente seca;
  • quantidade insuficiente de arborização;
  • ausência de unidade estrutural na paisagem;
  • falta de coerência do posteamento;
  • ausência de maior dinâmica na morfologia do terreno;
  • pastos não utilizados ( invadidos por sape)
  • ausência de embasamento estrutural na área do terreno imediato à edificação;
  • ausência de dinâmica no caminho existente;
  • ausência de áreas de lazer ativo e passivo;
  • ausência de zoneamento;
  • ausência de caminhos;
  • ausência de pontos de interesse ( visuais);
  • ausência de água.

REVITALIZAR A PAISAGEM: COMPOR

Existem três áreas fundamentais que fazem parte do tema da arte do design da arquitetura paisagística: a casa, o jardim e o entorno. A relação entre essas três áreas dentro de um específico cenário de circunstâncias e a forma de suas inter-relações estão entre as questões básicas do desenho e planejamento da paisagem desde os primórdios da arquitetura de espaços abertos.

As transformações radicais do novo milênio fez com que projetar uma paisagem hoje, não constitua mais um mero exercício estético, mas sim uma árdua tarefa que envolve análise, sensibilidade, conhecimento técnico e consciência ambiental. Uma nova relação do homem com o seu entorno, que aparece já no século XX, traduz-se no desejo de se trabalhar com base na estrutura local _ seja ela de campos já existentes, pântanos, brejos, restingas, florestas _ e também com as características do ambiente natural. A ênfase ecológica, na utilização da vegetação autóctone, corresponde ao senso de responsabilidade do profissional como guardião do meio ambiente.

Trabalhar com a inter-relação do homem - meio ambiente – espaço construído não significa atentar somente para que as variáveis do clima sejam observadas. Ë evidente a eficácia da vegetação como princípio de controle das variáveis microclimáticas. Meio é um conceito amplo e como tal deve ser entendido. O espaço produzido deve manter estreitos laços com o entorno, procurando uma posição de equilíbrio ecológico auto regulado com este, minimizando assim, o impacto da intervenção.

A preocupação com a adaptação do espaço construído ao meio ambiente nos leva a rever certos princípios de ordenação próprios que ecoam do passado. Esses princípios ainda se demonstram necessários `as práticas atuais, que através de seu traçado, permitem que o homem realize uma mediação com o espaço construído.

A necessidade de que o jardim faça parte de uma paisagem maior, enfoque herdado da escola paisagística inglesa do século XVIII, do ponto de vista formalista, busca uma sucessão de volumes justapostos e faz do jardim ( ou bosque, ou parque ) uma transição entre arquitetura e paisagem natural, não havendo qualquer limitação física ou visual até a linha de montanhas que circunda o espaço.

É evidente a influência da escola inglesa ainda nas composições paisagísticas de nosso tempo, embora o enfoque contemporâneo seja único. A técnica pictórica utilizada pelos ingleses, que surgiu das grandes fazendas ornamentais ( ferme ornee ) , funciona perfeitamente ainda hoje: os primeiros planos, os planos médios, planos de fundo e vistas distantes ordenados em torno de um ponto focal. Vista panorâmica emoldurada por árvores e espaços abertos dedicados a água e gramados _ tudo isto com escala e proporção generosas devido às grandes extensões de solo. Nesses jardins o homem participa cotidianamente de um espaço mutável, imprevisível e diversificado: ali existe um vínculo interior X exterior, onde perspectivas suavemente bloqueadas e outros elementos fornecem proteção e a climatização necessárias para o desenvolvimento das atividades nos espaços abertos.

Assim, o espaço produzido deve conter ao mesmo tempo as diversas manifestações culturais e sociais do homem: sua forma de vida deve ser contemplada. O entendimento do clima, do local, dos materiais locais e do homem pode contribuir para a recuperação de um espaço para as práticas sociais.

REVITALIZAR A PAISAGEM: INTERVIR

Partindo da localização privilegiada da arquitetura no ponto de cota mais elevada do terreno, buscou-se através de um eixo longitudinal imaginário _ fator determinante na transição interior/exterior _ criar um cone visual para uma zona de interesse: o vasto cenário de um parque ou bosque como elemento de inter-relação entre a casa e o entorno.

O parque ( ou bosque ) funciona tanto como fator bioclimático ao clima quente e seco da região _ no tocante à radiação solar no sentido de captação de luz no inverno e como proteção do sol no verão, controle de ventos, amenização do clima e umidade do ar _ como também como fator ecológico, no sentido de elaborar, intensificar as características da mata original existente ( ver diagnóstico ) e fundir a área projetada à paisagem circundante, procurando resgatar à biodiversidade perdida às custas das extensas práticas agrícolas.

O plano geral da área reservada ao parque providencia, através de um ininterrupto espaço fluido _ que não é de forma alguma capturado de um só golpe de vista _ a criação de um continuum espacial na natureza. Os espaços se movimentam sobre os outros espaços estendendo-se numa sucessão de cenários que não permanecem confinados em si, mas que se justapõe uns aos outros gerando, assim, uma composição muito mais complexa visualmente, infundindo à paisagem uma energia sutil e subjacente.

Um caminho sinuoso foi demarcado para ligar cenários e vistas distantes. Aproveitando a depressão natural do terreno _ a partir de um pequeno lago original _ e visando beneficiar-se dos fluxos de ar frio que a água permite, delimitou-se uma vasta superfície de água de modo a não dominar todo o plano do jardim. O acesso principal foi, calculadamente, desviado à esquerda de forma a permitir ao observador uma vista parcial do lago conforme a sua chegada. Pontos focais garantem a estrutura geral do plano como pontos de interesse: o esguicho, o pier, a ponte, a ilha. Quando, finalmente, o observador cruza a ponte ele capta a superfície do lago em toda a sua extensão. O caminho prossegue vislumbrando pastos e as facilidades usuais de uma fazenda: edificações para granja, curral, ordenha, queijaria e duas áreas para exercícios de montaria. O caminho continua subindo, então, na direção à casa, envolvido pelo cenário do bosque , cujo volume de árvores fornece ao projeto, a terceira dimensão, o teto. Grandes árvores nativas de crescimento acelerado, tais como o guapuruvu e o pau rei , são sugeridas e localizadas de forma a “serpentear” o caminho principal, definindo a estrutura geral da paisagem.

Na chegada à casa, o caminho desvia mais uma vez à esquerda, tentando buscar a perspectiva lateral da edificação, privilegiada por seus grandes planos de telhados. Um renque de palmeiras imperiais emolduram a área construída e dá escala ao conjunto edificado.O conceito de organização espacial junto à casa é claro, limpo e preciso. Expressa uma habilidade geométrica precisa, com uma concepção de eixos e eixos cruzados, que serve de contraponto a sensação de naturalidade do parque. O parque, projetado dentro do contexto natural da mata que envolve a arquitetura, propicia de certa forma um alívio do brilho dos grandes planos abertos que abraçam e unificam o conjunto arquitetônico.

As facilidades esportivas, tais como quadras, foram situadas próximas a casa mas, de maneira a não interferir com a privacidade da família. As áreas reservadas à agricultura familiar e pomar, preferencialmente de frutíferas autóctones, foram projetadas junto à mata existente de modo a garantir a interação dos vetores polinizadores e o intercâmbio de sementes, tão necessários à preservação do ecossistema.

Uma horta foi projetada, na parte posterior da casa, junto a área de serviço. Um sistema de abastecimento de água para irrigação é previsto pelo bombeamento de uma nascente existente na mata ciliar próxima, através de uma roda d’ água, que leva a água para cima.

Nas regiões quente-secas a presença da água é imprescindível. Aqui, ela é utilizada na forma de tanques, esguichos, espelho e lâminas d’água, que brincam com a rigidez formal do espaço externo, além de garantir a umidade do ar tão necessária a criação de um microclima mais ameno onde o efeito refrescante da vegetação só vem a acrescentar abrigo da radiação solar quente e conservar o frescor advindo de sua presença. A água passa , chamando atenção parada ou em movimento, por todo o entorno imediato da casa, e continua a fluir através de um pequeno córrego, levando o observador novamente a render-se à sensação misteriosa do bosque.

Assim como a presença da água é importante num projeto, para os primeiros planos os gramados tornam-se inestimáveis, evidenciando colinas e depressões do terreno, conformando o solo e destacando as vistas. Acrescenta-se a eles, a localização cuidadosa e artística de grandes volumes de massas arbóreas _ e assim é definido um plano paisagístico. Desse modo, e numa sucessão de recursos aplicados é que buscamos relacionar a arquitetura à paisagem circundante, estabelecendo um diálogo franco e direto, que o plano do parque, no caso específico da Fazenda Santa Cruz, procura conduzir. Em outras palavras, buscamos capturar a essência das antigas paisagens pastorais com seu senso de naturalidade, reverência e tranqüilidade, e construir um projeto que expresse a filosofia do nosso tempo, apropriando-se de nossas realidades cultural e social, climática e fitogeográfica, colocando o homem diante da própria Natureza e de sua própria energia vital.

 

EQUIPE:

Arquitetos paisagistas:

Anelice Lober

Fernando Acylino

Estagiágia:

Ingrid