REVITALIZAÇÃO DO MERCADO MUNICIPAL DE GOVERNADOR VALADARES - MINAS GERAIS

  1º LUGAR NO CONCURSO DE REVITALIZAÇÃO DO MERCADO MUNICIPAL – GOVERNADOR VALADARES

Localização: Governador Valadares / MG

Área total:10.000 M2

Área da Praça: 560 M2

Ano: 2003

A proposta viu o mercado mais do que como apenas um ponto focal da cidade, e sim como um nexo de identidade local e, por esta razão, como, um valor cultural a ser cuidadosamente preservado. O Mercado Municipal é o coração da cidade, e qualquer modificação em sua contextualização arquitetônica, vernacular e espontânea, poderia ocasionar um arrefecimento da sensação de pertencimento que é responsável pela manutenção do sentimento de identidade e de cidadania entre os membros da população. A proposta apresentada defende o argumento de que a memória coletiva se concretiza e se expressa nos nomes dos lugares, nos monumentos e nas tipologias arquitetônicas. Desta forma, todo o trabalho de revitalização do Mercado Municipal deve constituir-se como parte de um esforço que deve abranger a todos, desde os Poderes Públicos Municipais até a comunidade dos lojistas e a população dos usuários, porque defender e manter os espaços tradicionais da cidade constitui, definitivamente, um elemento básico e fundamental para a democratização da sociedade. Caracterizado por vinte e um blocos de edificações que abrigam, desordenadamente, duzentas e dez lojas agrupadas com pouca ou nenhuma lógica de planejamento ou de zoneamento por tipos de uso, suas edificações mostram, majoritariamente, um gabarito de um e dois pavimentos, conformando pequenas vielas e travessas que garantem a circulação dos usuários e das mercadorias.

Os problemas apresentados pelo edital do concurso exigiram uma estratégia que se desdobrou em três grandes gestos projetuais: o primeiro, o gesto arquitetônico, previu a criação de uma cobertura de aproximadamente 10.000 m2, uma estrutura em aço corten sustentando uma rede de cabos tensionados de aço que recebem, por sua vez, as faixas ziguezagueantes de teflon tensionado que configuram os sheds de iluminação e ventilação. Atendendo a uma das exigências da comunidade logista, esta cobertura garantirá uma identidade clara para o Mercado Municipal, em nada alterando a rica tipologia vernacular existente. Complementando o gesto arquitetônico, foram criadas pequenas edificações públicas, obedecendo às características morfológicas locais, para atenderem à algumas funções específicas, tais como: administração, posto de saúde, posto comunitário, sanitários públicos, posto policial e posto bancário.

O segundo gesto, urbanístico, propõe mudanças que possibilitem a equalização dos grandes conflitos urbanos entre usuários, carga e descarga de mercadorias, camelôs, ambulantes, estacionamento de veículos, bicicletários, infra-estruturas urbanas insuficientes, mobiliário urbano inadequado ou informalmente organizado, etc.. A solução configurou-se, em primeiro lugar, por meio da criação de um estacionamento subterrâneo sob a calçada e a caixa da rua Israel Pinheiro, com entrada e saída pela rua José Luiz Nogueira, vista como rua de tráfego seletivo, para carga e descarga de mercadorias, para os moradores da área e para veículos de utilidade pública (ambulâncias, viaturas policiais e de bombeiros, veículos de manutenção urbana). A criação deste estacionamento subterrâneo proporcionou, além da geração de renda proveniente da cobrança pelo sistema de vagas rotativas, a liberação e o arranjo organizado das muitas funções urbanas da calçada da rua Israel Pinheiro, que abriga a fachada principal do mercado. Os camelôs, removidos para a calçada da rua José Luiz Nogueira, oposta à fachada lateral do mercado, estarão abrigados em barracas desmontáveis especialmente desenhadas para este fim. O movimento de carga e descarga de mercadorias foi desviado para a esquina da rua de tráfego seletivo e a rua Israel Pinheiro, liberando assim a fachada principal. O piso das calçadas adjacentes ao mercado, das vielas e travessas internas e da rua de tráfego seletivo será renovado, contribuindo para a criação de uma nova identidade para o conjunto, resultando na criação de uma nova praça, a Praça do Mercado Municipal de Governador Valadares.

O terceiro gesto, o legal, não foi, propriamente, um gesto projetivo. Tratou-se ali das disposições legais para a criação de um Código de Posturas Especiais para a área do Mercado Municipal que, se aprovado pelos Poderes Públicos Municipais, terá força de lei. Esse Código estabelece normas que disciplinam a elaboração de projetos, reformas, execução de obras e suas instalações, em seus aspectos técnicos, estruturais e funcionais, exclusivamente na área do Mercado Municipal de Governador Valadares, definida pelas ruas Israel Pinheiro, Quintino Bocaiuva, Bárbara Heliodora e José Luiz Nogueira. O Código dispõe também sobre os usos da área do mercado, estabelecendo normas para a atividade de carga e descarga de mercadorias, para o estacionamento de veículos, para a manutenção das lojas do mercado, para a disposição das publicidades, etc.. Os dispositivos apresentados no Código de Posturas Especiais para a área da Praça do Mercado Municipal de Governador Valadares não foram uma tentativa de mudar as realidades da área. Foi, sim, o desejo de preservar o “core” do imaginário popular de Governador Valadares, dando a ele condições de revitalização e funcionamento que sejam compatíveis com a esperança por uma cidade mais justa, que ofereça igual acessibilidade aos serviços e equipamentos urbanos e a toda e qualquer melhoria realizada pelo Poder Público Municipal de Governador Valadares.

  

DA PRAÇA

Existe um novo conceito de se pensar a arquitetura da paisagem que expressa perfeitamente os humores do nosso tempo. É contemporâneo porém, evoca raízes de antigas tradições; está em sintonia com as atuais tecnologias, mas busca a ênfase dos materiais naturais; é excitante, porém evoca tranqüilidade e um senso de relaxamento; pode ser muito simples, porém esconde um tesouro oculto de sutileza e complexidade, podendo possuir alta carga simbólica. É denominado de estilo minimalista.
Aliado a esse conceito onde “Less is more” (Mies van der Rohe, 1959) existe uma nova filosofia na relação do homem e seu meio ambiente. A essência dessa filosofia está contida nas palavras do filósofo grego Heráclito: “O inconsciente harmoniza o consciente”. Dele advém o conceito de um design cósmico, de um movimento através do tempo e do espaço, baseado nos poderes do subconsciente de (d)escrever na mente das pessoas os objetos que se passam, assim como um rio que corre.” (Jellicoe & Jellicoe, The Landscape of Man, 1995 Thames and Hudson, London, pp:396 ).

Então, seguiremos nessa viagem em sua linha de movimento. Daqui vislumbramos as florestas no passado dos assentamentos indígenas com sua técnica, a “coivara”, de abrir clareiras estratégicas; os primeiros movimentos de abordagem da terra descoberta para o interior, as entradas e bandeiras, a ocupação colonial que criou a necessidade de ampliar a coivara do índio e o complexo de derrubar, de destruir. Das queimadas (procedimento do índio) até a monocultura do café, que garantia divisas ao Brasil e modificou completamente a paisagem de vastas regiões. É extraordinário o legado dessas antigas fazendas com suas lajes e muros de pedras, seus pórticos e acessos adornados por palmeiras, suas aléas sombreadas: todas essas fazendas que vicejaram graças ao trabalho escravo. Da simplicidade das praças coloniais com suas fontes, bicas, calçamento de pedras da região, muros de moledo: centros de reunião da vida urbana, pontos de encontro, de mercado e de lazer com toda sorte de festividades. Caminhamos por todas essas antigas artes e engenhos que concorrem com seu vocabulário riquíssimo, seus jeitos de fazer, seus rituais, a assegurar a identidade humana local.

A concepção do traçado da Praça do Mercado de Governador Valadares é bastante simples, dentro da tendência minimalista e do conceito cósmico. A praça de formato retangular possui piso em malha quadrangular (granito cinza serrado) com tabeira em granito preto e, revela de um lado, a perspectiva de um muro linear de pedras com 21 bicas (que recolhe as águas em seu bojo) arrematado por uma cama de pedras quartziticas, cujo traçado curvilíneo tem a finalidade de tensionar a placidez do conjunto. Do lado esquerdo, um grande círculo marcado por um piso em cascalhinho cria uma área de múltiplos usos (mesinhas, festas, forrós, etc) formando uma “ clareira” em seu centro e providenciando um teto circular que envolve e abraça o espaço livre gerado para os “acontecimentos”. A conformação modelada do piso e os elementos de projeto, tais como as árvores, serão percebidos dentro de um contexto tri-dimensional unificado que providencia escala e referência ao conjunto. O núcleo de coerência interna está na vegetação e inspirado na paisagem natural: a presença da água, a curva sinuosa do rio Doce e das ondulações das montanhas, os afloramentos rochosos do solo, a densidade e força das linhas, cores e volumes da massas arbóreas.

Expandindo o enfoque do século XX em relação à paisagem, que traduziu-se no desejo de se trabalhar com base numa estrutura local _ seja de campos, florestas, matas ciliares, pântanos, brejos ou restingas _ buscamos, aqui e agora, projetar e elaborar uma paisagem intensificando as características originais do ambiente natural, não como um mero exercício estético, mas através de uma tarefa árdua que envolve análise, sensibilidade, conhecimento técnico e consciência ambiental, fundindo as marcas memoráveis de meio milênio de ocupação histórica, que se somam a milênios de vivência de povos primitivos, destacando as vertentes culturais, sociais e étnicas, indissociáveis do patrimônio natural de sua paisagem na qual se inserem e se nutrem.

  

DA VEGETAÇÃO

A natureza brasileira é reconhecida como uma das mais ricas do planeta. Nesse contexto, Minas é um estado especial para quem procura um contato mais estreito com os ambientes naturais de nosso país. De todas as expedições científicas do século XIX, que percorreram o Brasil em todas as direções, Minas Gerais constava sempre do itinerário desses naturalistas. Esse fascínio é fácil de explicar. O estado possui quase todas as formas de vegetação extra-amazônica do país. Com exceção das faixas de contato direto com o mar (mangues , restingas e costões rochosos), as demais ocorrem em território mineiro. Percorrer essas diversas regiões um pouco como os naturalistas daqueles tempos seria enriquecedor.

Atlântica em Minas pode parecer contraditório, mas assim se denominam as formações sob influência direta da umidade do mar trazida pelos ventos. A Mata Atlântica com características diversificadas ocorre tanto na região litorânea como nas serras e planaltos do interior. Grande extensão da Mata Atlântica viceja sobre formações cristalinas pré-cambrianas. É o caso da Serra do Caparaó que constitui um majestoso maciço de rochas cristalinas, situado na divisa Minas Gerais – Espírito Santo.

Da enorme extensão primitiva da floresta estacional muito pouco restou, mas pelo menos ela está representada aqui pelo Parque Estadual do Rio Doce (MG, 35.970 ha) e o Parque Nacional do Caparaó (MG/ES, 26.200 ha). O primeiro é a última área expressiva da floresta estacional em Minas Gerais, isolada de permeio com ecossistemas profundamente alterados pela atuação humana, inclusive imensas plantações de Eucaliptos. Notabiliza-se pelo elevado número de lagoas ricas em fauna ictíica e por um número significativo de espécies ameaçadas. Já o Parque Nacional do Caparaó, em área de transição para a floresta pluvial tropical atlântica, contém um mosaico de formações florestais e foi consideravelmente alterado por ação antrópica. O relevo acidentado do parque, chegando a 1.200m de altitude no Pico Ibituruna, permitiu que se desenvolvesse uma flora rupestre adequada a tais condições ecológicas.

Os ecossistemas hoje fragmentados das florestas atlânticas podem ser equiparados a um vasto arquipélago, com “ilhas” de vegetação primitiva ou regenerada, separados por grandes extensões de pastos e áreas agrícolas ou urbanizadas. Lançar um olhar, percorrendo essa região, um pouco como os naturalistas que por aqui passaram, faz-nos refletir. Compreendendo o funcionamento desses ecossistemas torna-se mais fácil admirá-los e até mesmo contribuir para sua conservação. Quando o paisagista retira uma espécie da mata trazendo-a para a cidade, ele a retira do anonimato. Por esse motivo, tem de fazer uma escolha consciente buscando espécies representativas de todo um contexto fitogeográfico, mas também de um contexto cultural.

Para representar a flora dessa região escolhemos duas espécies, pela força de suas formas esculturais e presença marcante na paisagem: o ipê amarelo (Tabebuia carahyba Bureau) e a palmeira indaiá (Attalea camposportoana Burret). A palmeira indaiá, com altura média de 10 metros e grandes folhas armadas e eretas, é freqüentemente avistada em meio às pastagens, já que seus frutos são bem resistentes às queimadas. Assim, quando o caboclo faz a limpeza do mato com o fogo, afastando a competição de ervas e arbustos do solo, favorece a germinação do coco. Árvore dos campos e cerrados, o ipê amarelo marca de forma muito chamativa sua presença quando, em julho e agosto, perde suas folhas e reveste-se de flores na cor amarelo-ouro, agrupadas em panículas nas pontas de seus galhos grossos. A caraibeira atinge 6m de altura e é tida como indício de terra apropriada para implantação de pastos. Sua madeira é bastante utilizada e a casca, de gosto amargo, era utilizada pelos índios como febrífugo. Ainda hoje é usada na medicina popular como depurativo e anti-sifilítico.

 

EQUIPE:

Arquiteta paisagista:

Anelice Lober ( projeto da Praça e intervenção paisagística no entorno do mercado)

Arquitetos e Urbanistas:

Elizabete Reis

Eduardo Vasconcellos

Gustavo Martins

Alex Brando

Flávia Azevedo Nunes

Luiz Carlos Bina Filho

Imagens 3D: Marcus Venanzoni