BID - REQUALIFICAÇÃO URBANO AMBIENTAL NO BAIRRO HISTÓRICO DE SANTA TERESA - RJ

CLIENTE: BID - BANCO INTERNACIONAL DE DESENVOLVIMENTO (INTER-AMERICAN DEVELOPMENT BANK)

Localização: Bairro Histórico de Santa Teresa / RJ

Área: 22.000 M2

Ano: 2006

REQUALIFICAÇÃO URBANO AMBIENTAL no BAIRRO HISTÓRICO de SANTA TERESA / Rio de Janeiro

INTRODUÇÃO
Dentro do tema sustentabilidade nas cidades está implícito que para ser ecológico o urbanismo deve respeitar o passado, seus valores culturais e naturais em risco de extinção, amanhã preciosos para as futuras gerações. As cidades deverão fazer-se menos pela destruição do antigo visando substituí-lo pelo moderno, mas antes pela reconfiguração de suas áreas centrais e por aditar sabiamente o novo ao antigo, integrando o todo num valor acrescentado maior que a soma de suas partes. A cidade do Rio de Janeiro cresceu, nos últimos tempos, na direção de áreas sem a menor infra-estrutura urbana (zona oeste) abandonando outras, como o Centro e bairros adjacentes, que contam com infra-estrutura de água, luz, esgoto e rede de transportes. Esse crescimento equivocado significou desmatamento e principalmente uma “deseconomia”. Cabe à cidade agora condicionar sua ocupação urbana à infra-estrutura existente e a revitalização do centro surge como medida urgente de preservação ambiental (menos poluição devido aos grandes deslocamentos, menos desmatamento, etc.)
Esse projeto foi resultado de um trabalho de cooperação técnica entre o BID e o Fundo Fiduciário Português envolvendo participação comunitária através de uma ONG local. A área de intervenção, transição do bairro da Glória para Santa Teresa na Região Central, apresenta posição geoestratégica cheia de potencialidades paisagísticas e turísticas, valores patrimoniais e proximidade com o centro da cidade além das funções de diversidade, espaços vazios e cosmopolitismo. Trata-se de intervenção estratégica pontual capaz de agir como experiência-piloto e referência para outras intervenções no Rio de Janeiro. Seu objetivo global é captar vontade e desafio da comunidade, portanto intervir com ajuda do BID, num projeto que prospectiva de forma programada o futuro. Foi de grande preocupação também estabelecer os atores entidades, grupos ou pessoas que poderiam ser importantes para estabelecer o “Contrato Urbano” como novo paradigma da relação com a Administração Pública.

ANTECEDENTES
A área de estudo, ainda que de dimensões reduzidas constituiu um desafio á equipe: a definição de um Projeto Urbano para um percurso exige sempre a preocupação da sua inserção com a malha urbana envolvente. Para os urbanistas portugueses, pela própria experiência da cidade de Lisboa, na selecão de Eixos Estratégicos _ como foi o caso da Rua de São Bento onde o Município tinha patrimônio edificado _ a intervenção, no ano de 2001, constituiu uma “ação de demonstração" para um processo de indução das politicas de reabilitação que se estenderam a outras áreas da cidade, dando simultaneamente confiança ao próprio setor imobiliário para investir nos bairros históricos da cidade. Esta política foi designada de uma “Nova Cultura de Cidade”, verificando-se que, em 2005, 60% das licenças de construção que entraram no Município eram para reabilitar, contra 5% no restante país, e 33% na Europa.
O espaço da Organização Não Governamental ONG Baixo Santa do Alto da Glória _ sediada na área e parceira deste trabalho, como centro cultural que é, pode e deverá constituir-se num Centro Cívico que apoie a revitalização da área em estrita articulação com a comunidade. Não só pelas atividades culturais já em curso, pelos cursos de cidadania e pela formação que pretendem desenvolver, mas também e não menos importante, pelo exemplo de uma reabilitação do seu casarão datado de 1861 que se encontrava anteriormente em ruínas. Estamos certos que a reabilitação deste edifício é paradigmática pois adicionou valor ao património existente na vizinhança com um projeto criativo. Na área de intervenção tornou-se um exemplo de que os edifícios antigos, como patrimônio histórico, valorizam o local promovendo o enraizamento da comunidade e sua autoestima.

SANTA TERESA: UMA COLINA DE ALMA LUSO-AFRO-BRASILEIRA

Os bairros da Glória, Santa Teresa, Catete e Lapa são parte da história do Rio de Janeiro, capital do Brasil até meados de 1960. Durante a Segunda Guerra Mundial a região recebeu muitos imigrantes europeus, especialmente portugueses, italianos e suíços, que escolheram a área pelo clima ameno. No século XIX, engenheiros e arquitetos europeus desenharam em Portugal e no Brasil os prédios mais importantes do bairro. A área, que ainda contém muitos exemplos importantes da arquitetura que marcou a história do Rio de Janeiro, em muitos estilos, desde as igrejas coloniais ao barroco brasileiro, prédios e casas neo-clássicas, art nouveau e neo-góticos, revela sinais de degradacão. Esse processo, que coincidiu com a transferência da capital do país para Brasília, tem se agravado. Esta mudança significou o declinio socio-econômico da área, consequentemente, havendo menos investimentos e menor interesse na preservação: prédios e casas foram negligenciados e começaram a decair.

Nossa área de intervenção liga dois espaços do Rio de Janeiro fortemente contrastantes: Glória e Santa Teresa. O que impõe que se entenda bem a transição temporal e espacial que nela se insere a partir da historia desses dois Bairros e de sua própria, em estreita conexão com estes.

O bairro Santa Teresa está localizado numa colina próxima ao bairro da Lapa e é um dos mais antigos bairros do Rio de Janeiro. Salienta-se, que em 1744, o rio Carioca, cujas nascentes estão no Silvestre, nas encostas do Corcovado, foi alvo do primeiro sistema de canalização, visando o abastecimento de água da cidade. A água atravessava todo o atual bairro de Santa Teresa até o Aqueduto, atuais Arcos da Lapa. Apesar da sua proximidade com o centro do Rio de Janeiro, a ocupação de Santa Teresa não ocorreu paralela à da cidade, abrigando, até meados do século XVIII, no meio da sua densa vegetação, quilombos, malfeitores e centros de feitiçaria e rituaisafricanos. O atual bairro de Santa Teresa surgiu a partir do Convento das Carmelitas do mesmo nome, no século XVIII. O que constitui uma das primeiras expansões da cidade para fora do núcleo inicial de povoamento, no Centro da cidade. O bairro propriamente dito "surgiu por volta de 1850, quando se lotearam as chácaras do antigo morro do Desterro, episódio ocorrido em conseqüência da epidemia de febre amarela, que assolara a cidade naquele ano, mas que poupava lugares de topografia elevada", informa o professor Milton de Mendonça Teixeira. Por este motivo vieram para aí se instalar muitos imigrantes portugueses no século XVIII, pelo que a arquitetura lembra também o estilo colonial, com belos azulejos portugueses. Logo o recanto passou a despertar o interesse principalmente das famílias de melhores recursos financeiros, já que poderiam desfrutar de um clima excepcional, tendo surgido vários casarões inspirados na arquitetura francesa da época, sobrados muitos ainda preservados. Os estrangeiros encontraram também em Santa Teresa o local ideal para a fixação de suas residências. Atualmente os turistas visitam o bairro para conhecer os castelos e andar de bonde proporcionando uma viagem no tempo e o registro de imagens de construções arquitetônicas características do lugar, preservadas desde o início do século passado. Com efeito, Santa Teresa é um bairro da região central do Rio de Janeiro, conhecido pelas construções históricas e pelo bonde que circula em suas ruas, além de uma das principais atrações turisticas da cidade.

No alto do bairro há várias favelas e acessos para o Parque Nacional da Tijuca e o Corcovado. O acesso é feito pelo bonde ou por algumas linhas de ônibus. Com o tempo, Santa Teresa perdeu seu status de bairro nobre para a Zona Sul da cidade, e mais tarde, a região da Barra da Tijuca. Depois de um longo período conturbado, provocado por conflitos explícitos entre as favelas, Santa Teresa passa por um processo gradual de revitalização. É de realçar que na literatura e imaginário do carioca, Santa Teresa manifesta um isolamento, onde nem o bondinho ou as ladeiras existentes têm contrariado essa situação. A semana Santa começa hoje a constituir-se num fenômeno cultural, atrativo do carioca e de outros forasteiros onde as artes cênicas e artísticas se interligam à liturgia religiosa e ao importante pólo gastronômico, cultural, turístico e histórico que o bairro de Santa Teresa se tornou. O ponto de partida foi o chamado Dia D, quando um grupo de moradores resolveu protestar contra a situação calamitosa do bairro, daí nasceu e foi criado o “Viva Santa”, hoje uma ONG. A partir daí os índices de violência caíram e os turistas e moradores da cidade voltaram a ocupar as ladeiras de Santa Teresa. Por sua grande acessibilidade é composto de várias ladeiras tortuosas, que o ligam aos bairros vizinhos da Glória, Cosme Velho, Lapa, Bairro de Fátima, Catumbi e Rio Comprido - e topografia (colina ou morro) constitui um sítio com valor ambiental e patrimonial. Esse potencial deve ser explorado de modo que o percurso das duas ruas em estudo, pouco conhecido, se transforme num Eixo-Estratégico de articulação a Glória.

O BAIRRO DA GLORIA

A Glória é um bairro considerado o primeiro bairro da Zona Sul carioca, por fazer limite com o Centro e a Lapa. Antes dos aterros as águas da baía chegavam até ao sopé do Outeiro da Glória. O bairro deve seu nome à Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, uma das primeiras construídas na cidade no século XVIII, em torno da qual se consolidou o povoamento da região. Considerada uma das jóias da arquitetura colonial è um dos mais característicos monumentos do Rio. Após sua chegada ao Rio de Janeiro em 1808, a Família Real Portuguesa, ligou-se à Igreja da Glória, tendo batizado em 1819, a primeira filha de D. Pedro I e D. Leopoldina, a princesa Maria da Glória, futura Rainha D. Maria II de Portugal. Declarada "Monumento Nacional", o tombamento ocorreu a 17 de Março de 1938.
Até os anos 30 este bairro era considerado o Saint-Germain-des-Prés carioca, sendo que no XIX instalaram-se hotéis que serviram de residência aos diversos quadros políticos em exercício no Rio de Janeiro, então capital federal. O urbanismo e arquitetura inspirardos em Paris, com destaque a Praça Paris, verdadeiro jardim francês, hoje necessitando de reabilitação.
Entre os anos 30 e 60, os casarões em estilo eclético e boa parte das vilas operárias foram substituídas por prédios, verticalizando o bairro que assume as feições que tem hoje. A partir dos anos 60, com a saída da capital, inicia-se o processo de deterioração. Com uma área territorial pequena, o bairro possui o 16º melhor Índice de Desenvolvimento Urbano (IDH) da cidade, de acordo com o 2º Plano Estratégico. O bairro, predominantemente residencial, é considerado tranqüilo, apresentando um comércio de restaurantes e bares, alguns ainda explorados por portugueses. É servido por uma estação de metrô “Gloria”, não muito longe da Rua Hermenegildo de Barros e da desconhecida Travessa do Cassiano, área de nossa intervenção - o que nos aponta como potencialidade, facilitando a ligação ao bairro de Santa Teresa.

Apresenta ainda uma diversidade de importantes prédios , entre eles o Hotel Glória, considerado residência informal dos presidentes quando de visita ao Rio de Janeiro, desde a época de Fernando Henrique Cardoso até Luiz Inácio Lula da Silva, e também muito procurado por alguns sectores intelectuais de Portugal pela memória da envolvente portuguesa.

 

 

EQUIPE TÉCNICA (Projeto de Intervenção - Desenho Urbano e Paisagismo):

Arquiteta Paisagista Responsável:
Anelice Lober - arquiteta e paisagista
Estagiários:
Daniele Ruas
Ricardo Costa
Monique Cunha
Marcus Venanzoni - imagens 3D

EQUIPE TÉCNICA DO BID (Plano de Intervenção Socio-Urbanistico)

Coordenador BID:
Urbanistas Francesco Lazanfame e Eduardo Rojas
Coordenador LOCAL BID:
Arquiteta e urbanista Fernanda Magalhães
Consultor Portugues de Urbanismo:
Manuel da Costa Lobo e Maria Teresa Craveiro
Consultor Portugues de Desenvolvimento social: Paulo Andrade
Consultores Locais: Arquiteta Paisagista Anelice Lober (intervenções de desenho urbano e paisagismo) e Arquiteta Ethel Pinheiro (intervenção nas edificações)
Jurista: Flora El-jaick Maranhão
Especialista em Participação Comunitaria: Lincoln de Barros
ONG Arquitetos: Lauro Mesquita e Murilo Barbieri
Estagiários: Mickael Peillet, Leticia Bastos, Ricardo Costa